(I)
Algumas funções cerebrais me praticam para me fazer crer que sou uma e apenas uma. Isso cria uma certa coerência que nomeio “eu”. Outras dessas funções mergulham-me em ermos sem nomenclatura. Se eu fosse nomear ermos esses, eu os chamaria vágado. Vágado significa o equilíbrio de ausências, suspensão de limites, vitrine de possibilidades. Há quem prefira dizer vertigem do eu.
(II)
Se um dia eu alcançar essa ciência – conhecimento de como eu penso – então ponto. Na outra linha, travessão. Agora, ainda não. Ponto de interrogação.
(III)
A nomenclatura que me substantiva é repleta de “ex”: ex-socióloga, ex-professora, ex-contato publicitário, ex-repórter, ex-atriz, ex-articulista, ex-esposa, ex-feminista... Voltar a atuar qualquer desses papéis é sempre uma possibilidade, porque arquivos mortos de vida são apenas experiências adormecidas.
(IV)
Sou aquela que consumiu seus talentos sem qualquer reconhecimento. Paguei tudo o que não devia a ninguém. Restaram-me preguiça e despreparo: qualidades de desimportância no descompromisso de não ter que.
(V)
Amantes fiéis são traídos. Infiéis igualmente. A vantagem da infidelidade, dizem os infiéis, é que a traição pode se tornar indolor. Eu não saberia dizer. Sempre sofri de fidelidade. A vantagem, digo eu, é que jamais me traí.
(VI)
Do que tenho muita inveja é de gente que virou cordel. Queria ser assim letrada em cantos que me encantassem para uma platéia de desconhecidos. Então eu seria não-eu em histórias de mim, e me versejariam nas descrições de uma outra fantasia. É como um desejo de assassinato com vísceras expostas.
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Página 6 de "Curtas e Mínimas", por Ione Mattos